Artista apresenta metáfora do circo em um miniconcerto ambulante

Quem passava pela feira nos arredores da Casa de Cultura Flávio Craveiro, na manhã do dia 1° de dezembro, era surpreendido por uma harmoniosa música de origem misteriosa e uma movimentação anormal em torno de uma figura desconhecida, na região.

Acompanhada de um acordeon, vestida de picadeiro e lona de circo, a artista Lívia Mattos encarnava a sua Sanfonástica Mulher-Lona, personagem criado pela musicista para realizar um miniconcerto ambulante, inspirado em histórias do universo circense e com canções executadas ao vivo por ela.

O fato de a apresentação na Virada SP, em São José dos Campos, ter sido realizada em uma feira livre na região central da cidade significou uma oportunidade preciosa, para a artista, de estar em contato com o público frequentador do local que chegou ali pelos atrativos da feira, mas acabou tendo a atenção capturada por uma apresentação artística – provocando um encontro incidental.

Lívia Mattos conversou com a nossa equipe sobre a sua apresentação no festival cultural e o processo criativo, de pesquisa e memória do circo que envolve o seu trabalho em A Sanfonástica Mulher Lona.

Amigos da Arte – Como foi a experiência de participar da Virada SP, em São José dos Campos? Se apresentar em um espaço aberto é mais divertido do que estar no palco?

Lívia Mattos – A Sanfonástica Mulher-Lona foi apresentada em uma feira de rua, ao lado de um centro cultural, o que proporcionou o contato direto com um público que não esperava pela atração – e sim pela feira. Acredito muito na potência desses “encontros” com a arte, por pessoas que não vão diretamente ao encontro dela. Dessa forma, apreciei demais a sensibilidade dos organizadores da programação artística, em entender que meu trabalho poderia transitar em espaços “fora do comum”, fazendo outro tipo de interlocução com a cidade. Tudo isso me faz lembrar a letra de uma música incrível de Gilberto Gil: “O povo sabe o que quer/ mas o povo também quer o que não sabe”.

Amigos da Arte – O seu trabalho artístico em A Sanfonástica Mulher Lona partiu de uma pesquisa acadêmica sobre o universo circense. O que exatamente você pesquisou?

Lívia Mattos – Comecei a minha carreira artística no circo, como circense de picadeiro. E foi sob a lona que comecei a tocar acordeom e me relacionar com a música para cena. Posteriormente, me formei em Sociologia com um bacharelado que juntava as minhas grandes paixões: a música, o circo e as Ciências Sociais. A pesquisa se desenvolveu partindo de entrevistas com circenses veteranos, contando a sua narrativa de vida e abordando a relação entre a música e o circo, no Brasil. Terminei a faculdade em 2012 e sigo fazendo esses registros até hoje, atualmente dirigindo um documentário sobre o tema.

Amigos da Arte – Por que esse mundo é tão fascinante para você?

Lívia Mattos – Acho fascinante a autonomia e liberdade dos circos de lona, funcionando quase que como centro cultural itinerante que transita e comunica territórios, agregando diversas linguagens em seu arcabouço, tendo sido fundamental para o desenvolvimento da música no país, fundamentalmente entre as décadas de 1940 e 1980.

Amigos da Arte – A sua performance é um espetáculo para crianças e adultos. De que forma você aborda os temas e clichês do mundo circense?

Lívia Mattos – É uma intervenção voltada para todas as idades, disposta a interagir com diferentes públicos, como se armasse, a cada vez, o circo em uma cidade que nunca estivera antes.

Acredito que o mundo do circo dilata emoções e circunstâncias que são comuns à existência humana. A falar primeiro das emoções, cada número expande a sensação que temos que lidar na vida com o medo, a leveza, o peso, o drama, o humor, a tensão, o lúdico etc. Em relação às circunstâncias, o circo leva à risca o risco inerente à vida de todos nós, diariamente, tendo este como matéria-prima, como piada, como desafio, como motor para seguir adiante. A Sanfonástica Mulher-Lona metaforiza a itinerância dos circos de lona pelas diferentes localidades, experimentando essa expansão de emoções no téte-a-téte com o público.

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