Marina Peralta mostra letras engajadas e reggae de primeira linha na madrugada da Virada SP de São José dos Campos

Foto: Joca Duarte

Na madrugada do dia 1° de dezembro, o palco Arquivo, montado na Fundação Cassiano Ricardo, parceira da Amigos da Arte na realização da Virada SP, em São José dos Campos, recebeu o show da cantora e compositora Marina Peralta. Natural do Mato Grosso do Sul, a artista que ganhou visibilidade por meio de vídeos caseiros divulgados na internet vem se destacando no cenário nacional pelo engajamento de suas letras e a qualidade sonora.

Marina faz reggae com influências de rap, jazz, rock e MPB. Mas sua originalidade se destaca principalmente pelo engajamento das letras, que versam sobre o empoderamento feminino, problemas como as desigualdades econômica e social, a luta pela preservação das comunidades indígenas e a importância do autoconhecimento.  

Em suas apresentações, a artista também reforça o discurso de militância, com críticas ao agronegócio, ao racismo e modelo econômico que oprime minorias. Acompanhada de sua banda, Marina aproveitou o show na Virada SP em São José dos Campos para, mais uma vez, se posicionar e questionou a ideia de “civilizar os povos indígenas”. “Quando falamos isso, esquecemos que esses povos já têm a sua própria civilização”, defendeu.  

A cantora conversou com a nossa equipe após o show na Virada SP. Confira a entrevista:

Amigos da Arte – Você atua em um nicho ainda bastante dominado por homens (o reggae) e, ao contrário da imagem clássica associada ao gênero, de uma “música paz & amor”, assumiu uma postura de militância. Por que escolheu esse caminho e o que te guiou?

Marina: Sinto que a música me escolheu e eu percebi, abracei. Vivi a vida toda na periferia. O rap salvou a minha arte, me ensinou muito sobre essa ferramenta de transformação. Quando conheci o reggae, já tinha entendido esse propósito, aliado à espiritualidade e musicalidade. Me sinto na responsabilidade de quebrar esses estereótipos [na música] e de falar o que precisa ser dito.

Amigos da Arte – Suas letras abordam temas espinhosos, como o agronegócio, a preservação das comunidades indígenas, o racismo e levantam a bandeira do feminismo. Quais são suas influências na construção desse discurso?

Marina: São as pessoas, a vida e as condições em que vivi. Mas sou muito grata aos movimentos sociais, mais especificamente ao Movimento Estudantil. Eu comecei a compreender as desigualdades quando frequentava a igreja [evangélica], ainda criança. Mas foi na escola e na universidade que tive acesso a pessoas e a debates e estudos mais profundos sobre História e sobre a importância da organização dos movimentos sociais – e isso mudou minha a vida! Conheci a luta pela terra, o feminismo e uma série de pautas pelas quais entendi que precisava lutar. “A expressão da sua arte é resultado do que há dentro de ti” [a cantora cita trecho de Qual é o sentido?, faixa do seu disco Agradece].

Foto: Joca Duarte

Amigos da Arte – Esse tipo de reivindicação, em suas letras, já rendeu críticas a você e ao seu trabalho. Por que você não recuou? Acha importante se posicionar, como artista, no Brasil de hoje?

Marina: Eu não recuo porque eu tenho convicção do poder transformador que a arte tem. Porque sei como chegar nas pessoas, acredito muito no que faço. Tenho uma ferramenta muito poderosa em mãos, que é o microfone, o espaço de fala. E vivo para amplificar a voz de muita gente. Acho que esse é o meu propósito. Além de entender também o momento de me silenciar, no meu lugar de privilégio. Acho que se não estivermos incomodando ninguém, então devemos rever a nossa arte. 

Amigos da Arte – Você foi criada em uma família religiosa, frequentou a igreja quando criança e até hoje tem uma relação forte com Deus, que fica evidente na canção Deus é do gueto. Como podemos interpretar os versos em que você diz que “Deus é negro, é índio, é mulher, é menino”?

Marina: Cresci na igreja evangélica, porém não sou cristã. Acredito em outros caminhos para se chegar até Deus. E na real, acredito mesmo que conhecer Deus é conhecer a si mesmo. Por isso, hoje traço o caminho do autoconhecimento, de encorajamento mesmo, para enfrentar a si, é um grande portal. Escrevi esses versos bem nessa época, de transição, e eles fazem muito sentido porque quebram esse padrão de um Deus branco, homem, sentado num trono a nos julgar. Se for para personificar Deus, que seja um Deus diverso!

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